Analistas do comportamento debatem o uso do laboratório didático com animais no ensino

Bruno Strapasson
Dr. Bruno Strapasson

“O laboratório didático com animais é o melhor modo de ensinar os princípios básicos da análise experimental do comportamento?” Dr. Sérgio Cirino, professor da UFMG,  e Dr. Bruno Strapasson, professor da UFPR, responderam a essa pergunta – e apresentaram sugestões de leitura para aprofundamento sobre o tema.

Dr. Sérgio Cirino

A questão proposta é complexa e envolve argumentos de diversos âmbitos – didático, ético, de definição dos objetivos de ensino, de relações entre pesquisa e ensino etc. O objetivo desse breve debate não foi esgotar a questão, mas apenas destacar alguns elementos envolvidos em sua discussão. Os pontos de vista divergentes de Cirino e Strapasson auxiliam os interessados a terem um panorama da discussão. Para um aprofundamento, as indicações de leitura dos professores são um bom ponto de partida.

Leia a resposta do Dr. Sérgio Cirino:

      “Desde a década de 1960 vários cursos de Psicologia brasileiros usam ratos em laboratórios didáticos de Análise do Comportamento. O que se faz lá? Basicamente o ensino de princípios básicos a partir de exercícios práticos. Tais exercícios servem, por exemplo, para demonstrar que consequências positivas aumentam a probabilidade de emissão das respostas que antecederam tais consequências. É um princípio muito importante para a Psicologia e sua demonstração no laboratório é efetiva, tanto para os estudantes, quanto para os professores. Entretanto, para que as práticas sejam bem-sucedidas, os ratos são submetidos a condições que podem ser avaliadas como aversivas. Por exemplo, o tempo de privação de água e o alojamento individual de um animal social. Tais condições têm sido consideradas injustificadas do ponto de vista do bem-estar dos animais. A Lei 11.794 de 8 de outubro de 2008 criou o Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (CONCEA). Essa lei estabelece que é função do CONCEA formular e zelar pelo cumprimento das normas relativas ao uso humanitário de animais para o ensino e a pesquisa além de monitorar e avaliar a introdução de práticas alternativas. Nesse contexto faz-se mister a proposição de práticas alternativas ao tratamento aversivo dado aos ratos de laboratório. Para iniciar o debate vou indicar algumas dessas alternativas:

  • “À privação: Usar leite com açúcar como estímulo reforçador em vez da água ou aumentar a quantidade de sal na alimentação, antes das aulas práticas; e
  • “Ao alojamento individual: Os ratos podem ser alojados em grupos em gaiolas maiores permitindo o contato direto entre eles para que se efetivem os comportamentos de grooming e a manutenção de estruturas hierárquicas.

      “Em suma, as práticas realizadas nos laboratórios didáticos de Análise Experimental do Comportamento envolvem principalmente a demonstração de princípios básicos. O que se tem, em geral, são repetições de ‘práticas que dão certo’. Os roteiros de laboratório são os mesmos desde a década de 1940, quando Fred Keller escreveu a primeira sequência de práticas na Universidade de Columbia. Assim, os professores de Análise Experimental do Comportamento devem procurar alternativas ao uso dos ratos. Se não encontrarem e decidirem manter as práticas com eles, que o façam com o mínimo de sofrimento para os ratos.” 

Sugestões de leitura do Dr. Sérgio Cirino:

Miranda, J. J., Gonçalves, A. L., Miranda, R. L. & Cirino, S. D. (2011). Ética em experimentação animal: reflexões sobre o laboratório didático de análise do comportamento. Psicologia: Teoria e Prática, 13, 198-212.

Keller, F. S. & Schoenfeld, W. N. (1949). The psychology curriculum at Columbia College. American Psychologist, 4(6), 165-172.

 

Resposta do Dr. Bruno Strapasson:

      “Qualquer resposta categórica a essa pergunta será inapropriada. Responder à pergunta apresentada não é fácil porque o laboratório com uso de animais é apenas um instrumento. Ele não é nem bom nem ruim em si mesmo e só se torna útil, apropriado ou conveniente quando tem-se objetivos claramente definidos. ‘Ensinar princípios básicos’ não é uma boa forma de descrever um objetivo para uma atividade didática. Não ensinamos ‘princípios básicos’: ensinamos comportamentos relacionados a esses princípios. Podemos ter como comportamentos-objetivo de ensino que o aluno seja capaz de caracterizar o conceito de reforço; identificar aspectos que compõem um comportamento; caracterizar o conceito de modelagem; modelar comportamentos; analisar variáveis que afetam comportamento; manejar condições nas quais um organismo vive para favorecer aprendizagem de comportamentos etc. Esses são alguns possíveis objetivos de um professor de Análise Experimental do Comportamento. O ensino de alguns desses comportamentos não exige ou não é beneficiado pelo uso de um laboratório com animais. Não faria sentido, por exemplo, usar animais para simplesmente ‘demonstrar conceitos’ em um organismo vivo. Aulas expositivas, vídeos ou simulações computacionais são recursos suficientes e apropriados para esse fim. Além disso, a própria legislação impede o uso de animais para simples demonstração de conceitos. Entretanto, o ensino de alguns comportamentos-objetivo pode ser muito beneficiado com o uso do laboratório com animais. Tais laboratórios trazem pelo menos três vantagens para o ensino de alguns comportamentos:

  1. “os alunos trabalham em um contexto no qual são controladas muitas das variáveis que podem interferir num processo comportamental facilitando a identificação e manejo de variáveis relevantes,
  2. “o professor tem maior controle sobre variáveis que podem interferir no processo de conhecer dos alunos e
  3. “os eventuais erros cometidos pelos alunos não geram consequências prejudiciais para o organismo com o qual estão lidando.

      “Além disso, o ambiente de laboratório facilita a criação e manejo de contingências que permitam a resposta ativa, a aprendizagem em pequenos passos, o desenvolvimento do repertório respeitando o ritmo individual e o reforço imediato para o comportamento do estudante. O desenvolvimento de comportamentos-objetivo influenciado por características como essa pode ser bastante beneficiado com o uso de animais em laboratórios didáticos.

      “O comparativo ‘melhor’ contido na pergunta também exige atenção. Uma prática só pode ser dita melhor em comparação com outra prática e a comparação entre tais práticas exige a identificação de um parâmetro ou objetivo a ser alcançado. O uso de um software que simule o comportamento de um rato de laboratório é certamente mais apropriado para demonstrar conceitos do que o uso de animais vivos. Se, por outro lado, o objetivo de um professor for ensinar o aluno a cuidar com responsabilidade de outro organismo, a lidar com o impacto das variações individuais e dos imprevistos numa intervenção comportamental ou a avaliar a interação dinâmica entre operações motivacionais e engajamento de um organismo em contingências concorrentes, é provável que o uso de animais vivos seja melhor do ponto de vista pedagógico. Mais uma vez, percebe-se como responder à pergunta que originou esse debate exige uma definição clara dos comportamentos objetivos formulados para uma disciplina. A rigor, uma resposta direta à pergunta não me parece poder fugir de algo como ‘depende dos comportamentos objetivo e das condições de ensino disponíveis ao professor.’ Se houver demonstração da função pedagógica de seu uso, se não houverem alternativas validadas para substituição e se todos os princípios da ética na experimentação animal forem cumpridos, o uso de animais pode ser a melhor alternativa em muitos casos.”

Sugestões de leitura do Dr. Bruno Strapasson:

E você, como responde à pergunta? Deixe sua contribuição nos comentários desse post.

Anúncios

Um comentário sobre “Analistas do comportamento debatem o uso do laboratório didático com animais no ensino

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s