Debate sobre o uso do laboratório didático com animais continua

Bruno Strapasson
Dr. Bruno Strapasson

Continuando o debate sobre o uso do laboratório didático com animaisDr. Bruno Strapasson, professor da UFPR, comenta a resposta do Dr. Sérgio Cirino, professor da UFMG. Dr. Rodrigo Miranda, pós-doutorando da USP-RP e ex-orientando de Sérgio Cirino, também participa do debate comentando as respostas anteriores. Ambos apresentaram novas sugestões de leitura para aprofundamento sobre o tema.

Dr. Rodrigo Miranda

Em um post anterior, Bruno Strapasson e Sérgio Cirino responderam à questão “O laboratório didático com animais é o melhor modo de ensinar os princípios básicos da análise experimental do comportamento?”. Agora, Bruno comenta a resposta de Sérgio. E Rodrigo apresenta suas posições sobre o debate. Para um aprofundamento na discussão, as novas indicações de leitura são uma contribuição importante.

Leia o comentário de Dr. Bruno Strapasson:

      “Sérgio Cirino menciona aspectos importantes do uso de animais de laboratório em atividades didáticas. O debate acadêmico nacional e a legislação atual sobre o cuidado com animais de laboratório em práticas científicas e didáticas é bastante claro ao sugerir que atividades que tenham como fim apenas a ‘demonstração dos princípios básicos’ não é justificável. Tendo a ser ainda mais incisivo a esse respeito sugerindo que, se o objetivo de uma prática com animais se restringir à demonstração de conceitos, ele não deve ser realizado e a busca de práticas alternativas não é apenas uma opção, mas uma obrigação.

      “Entretanto, entendo que um analista do comportamento dificilmente irá estabelecer como objetivo de ensino nesse contexto a ‘demonstração empírica de processos básicos’ (ainda que esse seja um efeito frequentemente alcançado). Uma abordagem como essa não é coerente com o que já sabemos sobre ensino na Análise do Comportamento. O estabelecimento de objetivos de uma atividade didática deve ter como foco o desenvolvimento de comportamentos-objetivo e o uso de animais de laboratório é um instrumento especialmente útil na implementação de contingências de ensino. Para além da demonstração de princípios básicos, a maior parte dos manuais de laboratório disponíveis sugere também objetivos relacionados a ‘comportamentos científicos’ (formulação de perguntas de pesquisa, programação e manejo de contingências, formulação de estratégias de observação direta do comportamento, avaliação de hipóteses baseada em dados, etc.), ao cuidado com outro organismo e a lidar eficazmente com problemas e diferenças individuais, dentre outros. Cada um desses conjuntos pode ser decomposto em diversos comportamentos-objetivo, todos relevantes para a formação profissional de um analista do comportamento. Ademais, não há qualquer razão para se restringir a objetivos como esses. O laboratório didático se presta a obtenção de diversos objetivos educacionais e sua utilidade ou adequação deve ser julgada caso a caso, a depender de quais objetivos foram planejados

      “Concordo com Sérgio Cirino quando ele sugere que devemos evitar ao máximo a exposição dos animais a condições aversivas. A manutenção de ratos isolados, por exemplo, não faz nenhum sentido quando esses são usados para atividades didáticas. Nesse contexto, não é necessário impedir a interação social entre os animais (um rato não contará ao outro como se pressiona uma barra). Permitir que haja tal interação tornará os animais menos estressados, mais dóceis e é exigido pela Diretriz Brasileira para o Cuidado e a Utilização de Animais para Fins Científicos e Didáticos (DBCA, Concea, 2013). Quando se trata da privação de água como operação motivadora, entretanto, ela ainda me parece mais interessante que o uso de leite com açúcar ou sal na alimentação. O uso de leite com açúcar dificulta a limpeza do equipamento, aumentando a chance de contaminação pela proliferação de microrganismos nocivos ao rato. Além disso, já há vasta literatura sobre parâmetros seguros de privação hídrica (Rowland, 2007). É possível se utilizar parâmetros de privação que sabidamente não comprometem a saúde ou geram estresse em ratos. A mesma literatura, entretanto, ainda é controversa sobre o uso de outros alimentos mais palatáveis como operação motivadora, bem como não se conhece adequadamente os efeitos desse tipo de procedimento para a saúde do rato.

      “Em síntese, parece-me que eu e Sérgio Cirino concordamos que o uso de animais em laboratório deve ser evitado se o único objetivo do professor responsável for a ‘demonstração de princípios básicos’. Nós divergimos, entretanto, quanto às prescrições que fazemos a partir desta avaliação. Enquanto ele sugere que se evite o uso de animais ou se use estratégias específicas para se manter o bem estar animal caso se insista em manter esses objetivos, eu proponho que objetivos como esse sejam abandonados definitivamente. O uso de animais em práticas didáticas ainda me parece bastante importante no ensino de comportamentos profissionais de um analista do comportamento, mas os comportamentos-objetivo devem ser muito claros para o professor, devem seguir a legislação vigente garantindo o bem estar dos animais e deve ser pautada na literatura especializada que permitirá tomar as decisões necessárias para se estabelecer os parâmetros  (de privação, por exemplo) usados nas diferentes práticas.”

Novas sugestões de leitura de Dr. Bruno Strapasson:

CONCEA (2013). Diretriz brasileira para o cuidado e a utilização de animais para fins científicos e didáticos. Brasília: Ministério da Ciência e Tecnologia.

Rowland, N. E. (2007). Food or fluid restriction in common laboratory animals: Balancing welfare considerations with scientific inquiry. Comparative Medicine, 57(2), 149–60.

 

Leia o comentário de Dr. Rodrigo Miranda:

      “Concordo com Sérgio Cirino e Bruno Strapasson sobre a dificuldade de delimitarmos o adjetivo ‘melhor’ para o uso didático do laboratório animal operante. Todavia, a história nos ensina que ele tem sido o principal recurso pedagógico da Análise do Comportamento, especialmente no Brasil, desde a década de 1960.

      “Manuais brasileiros de suporte para o uso do laboratório indicam que se sustenta por dois objetivos didáticos primários: (a) demonstrar princípios básicos do comportamento e (b) desenvolver habilidades básicas de pesquisador. Esses objetivos foram influenciados pelas proposições de Keller, Schoenfeld e Volkmann entre as décadas de 1940 e 1950. Dentre os vários aspectos que poderíamos debater aqui, vamos delimitar um: será que as contingências ao longo do tempo não se alteraram? Assim, será que não deveríamos repensar o uso deste recurso? Creio que a resposta é sim: as contingências mudaram e deveríamos nos engajar em reflexões sobre o uso do laboratório animal operante como instrumento de ensino. Isso posto, é necessário ficar sob controle daquilo que no presente é importante. Um aspecto premente é a regulamentação brasileira em tramitação sobre o uso de animais em práticas didático-científicas.

“Um aspecto importante precisa ser salientado: o laboratório não é um recurso para formar analistas do comportamento. Ele é um instrumento da formação do psicólogo. Dessa forma, seu uso deve se justificar em uma formação ampliada para o futuro exercício profissional (e reflexivo) do psicólogo.

      “Se o objetivo principal for ‘demonstrar princípios básicos do comportamento’, encontraremos problemas face à nova legislação. Se você já sabe o resultado da prática – e por isso ela demonstra o princípio – ele não se justifica legalmente. Várias áreas do conhecimento (e.g., Medicina, Medicina Veterinária) já tem se engajado na mudança de suas práticas didáticas com animais há alguns anos. Eles têm desenvolvido modelos artificiais, vídeos, plataformas virtuais, etc. Nessa direção, poderíamos trabalhar com vídeos, por exemplo. Desde a década de 1970, Ellen Reese utilizava vídeos para demonstrar princípios básicos com animais e crianças. Outro exemplo é o investimento em softwares que simulam o rato e as práticas do laboratório. Esses recursos cumprem o papel da demonstração dos princípios básicos, mas não atendem ao objetivo de desenvolver habilidades básicas de pesquisador. Pensando apenas nos softwares: eles diminuem drasticamente a variabilidade comportamental do sujeito experimental. Com isso, o ‘erro de medida’, aquilo que força o pesquisador a dialogar o dado com a teoria, se reduz. Isso impacta a variabilidade comportamental do futuro pesquisador. Além disso, reduz a possibilidade da serendipity, outro aspecto importante neste contexto.

“Se o objetivo principal for ‘desenvolver habilidades básicas de pesquisador’ pode-se pensar em alternativas para o uso do laboratório como instrumento didático. Essas habilidades são importantes não só para o futuro pesquisador, mas para o futuro exercício do psicólogo, tal como o psicólogo clínico. Diante disso, podemos nos perguntar: porque não expandir o uso de softwares com humanos? Temos plataformas interessantes já produzidas, tais como o ProgRef (UEL) ou os experimentos do Instituto Walden 4. Poderíamos pensar, também, no uso do MTS3. Há pesquisadores discutindo conceitos da Tecnologia da Informação (TI) para pensar em plataformas de aprendizagem, e.g., gameficação. Além disso, há exemplos do passado, como o livro ‘Ensinando observação: Uma introdução’. Por fim, ainda poderíamos criar práticas alternativas usando os próprios ratos. Por exemplo, os estudantes desenvolveriam uma pergunta simples de pesquisa e, para modelar a resposta desejada, eles teriam de percorrer variados princípios básicos. Dessa forma, se o objetivo for ‘desenvolver habilidades básicas de pesquisa’ desde a graduação, as práticas devem ser remodeladas para dialogar com a legislação em trâmite. Isso contribui para a formação do psicólogo no geral, já que parte das habilidades do pesquisador estarão presentes nos variados contextos do exercício profissional do psicólogo.”

Sugestões de leitura de Dr. Rodrigo Miranda:

Danna, M. F. & Matos, M. A. (1982). Ensinando observação: Uma introdução. EDICON: São Paulo.

Keller, F. (1977). Summers and sabbaticals: Selected papers on psychology and education. Champaign: Research Press Co.

 

E você, qual sua posição nesse debate? Deixe sua contribuição nos comentários desse post.

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