[Artigo] Expressando valores na clínica analítico-comportamental

Na Análise do Comportamento, discussões sobre o papel dos valores têm se dividido entre sua inserção no sistema ético skinneriano e no contexto clínico. Dentro do segundo grupo, Assaz et al. (2016) fazem um apanhado teórico sobre a temática e suas implicações em contextos clínicos.

Skinner buscou interpretar os fenômenos psicológicos tendo em vista as interações históricas entre o organismo e o ambiente. O comportamento de valorar (a expressão de valores, o julgamento ou o juízo de valor) também está sujeito às condições que o antecedem. Sua emissão ocorre com frequência através de juízos de valor sobre eventos, estando sob controle não apenas do evento, mas também do contexto e dos efeitos que este evento têm sobre o comportamento do sujeito.

Percebemos também que a audiência diante da qual expressam-se valores, produz reforçadores ou punições sociais para determinadas respostas, compondo um controle contextual que pode levar o indivíduo a gerar tatos distorcidos. Assim, o sujeito passa a manifestar valores diferentes para audiências diferentes. Ainda que o estímulo discriminativo (o evento) seja o mesmo.

“Uma pessoa pode afirmar, por exemplo, valorizar a preservação do meio-ambiente diante de membros de uma ONG ambientalista, mas não dizer o mesmo quando está sozinho ou em uma entrevista de emprego para uma empresa de poluentes.” (p. 33)

Para Assaz et al. (2016), outro fator que influencia a expressão de valores são as variáveis motivacionais, ou operações estabelecedoras. As operações estabelecedoras alteram a efetividade de uma consequência, seja intensificando seu efeito reforçador ou punitivo, aumentando ou diminuindo a probabilidade de o comportamento se repetir. A presença destas variáveis pode, por exemplo, aumentar a intensidade de um estímulo reforçador associado a comportamento X em detrimento de outros que levariam a comportamento Y.

“Uma pessoa que está experienciando dor intensa provavelmente afirmará valorizar sua saúde corporal e bem-estar; valores como ‘preservação do meio ambiente’ ou ‘reconhecimento profissional” dificilmente aparecerão nesse momento; elas serão mais prováveis quando a dor passar.’” (p. 34)

Além das variáveis contextuais e operações estabelecedoras, as relações simbólicas que compõem nosso comportamento verbal influenciam indiretamente no estabelecimento de novos valores, ainda que o aprendizado direto tenha se dado apenas em situações específicas. Este processo integra a Teoria das Molduras Relacionais*. O aprendizado de um valor, digamos a preservação do meio ambiente, forma uma rede relacional de estímulos por suas relações simbólicas com outras expressões de valores. Preservar o meio ambiente está relacionado a “não causar danos ao meio ambiente” (relação de oposição), “a reciclagem ajuda a preservar o meio ambiente” (relação de causalidade). Assim, atitudes que causem dano ao meio ambiente, como o desmatamento ou a emissão de gás carbônico, serão aversivas para o sujeito e se tornarão menos prováveis, e atitudes que envolvem reciclagem serão mais prováveis.

No contexto clínico, a expressão de valores pode ser usada pelo terapeuta para revelar o efeito reforçador de estímulos sobre o comportamento do indivíduo. Um cliente que afirma ter como um valor o desenvolvimento do seu filho pode estar indicando que sinais deste desenvolvimento são fortes consequências reforçadoras de seus comportamentos. No entanto, ao considerarmos as variáveis motivacionais e contextuais, podemos descobrir outros determinantes desta expressão e direcionar a intervenção para um caminho mais assertivo.

A presença do terapeuta faz parte do contexto em que a expressão de valores acontece, sendo necessário investigar qual o efeito que ele produz sobre o comportamento do cliente. Para Assaz et al. (2016), proporcionar um ambiente de escuta, entendimento e ajuda permite que o cliente discrimine a interação com o terapeuta como uma interação social não punitiva, minimizando a influência da aprovação do terapeuta sob a emissão de valores. Assim, o controle por reforçadores pessoais do cliente terá mais intensidade sobre seu comportamento verbal. Variáveis motivacionais de curto prazo também podem mascarar valores no momento da terapia devido à mudança na intensidade de reforçadores, mudança esta que pode não se manter por muito tempo.

Por fim, a compreensão das redes relacionais pode ser um mecanismo de mudança, na medida em que nos permite relacionar valores e comportamentos através de suas relações simbólicas, possibilitando mudanças comportamentais futuras por meio da transformação de função de estímulos relacionados.

Basear nossas práticas num arcabouço teórico consistente, abrangendo a complexidade de fenômenos com os quais nos deparamos enquanto profissionais, nos possibilita expandir e aperfeiçoar nossas intervenções. No caso da expressão de valores, a identificação de variáveis contextuais, reforçadoras e motivacionais, bem como o reconhecimento das redes relacionais de estímulos, possibilita-nos clareza quanto ao estabelecimento de valores e suas conexões com os comportamentos do indivíduo. Podemos também modificar a função de estímulos através de relações estabelecidas verbalmente e, consequentemente, podemos modificar também o comportamento do indivíduo.

Um resumo de: Assaz, D. A., Vartanian, J. F., Aranha, A. S., Oshiro, C. K. B. & Meyer, S. B. (2016). Valores sob a perspectiva analítico-comportamental: da teoria à prática clínica. , 18(3), 30-40.


* Para mais informações sobre a Teoria das Molduras Relacionais, sugerimos: Perez, W. F., Nico, Y. C., Kovak, R., Fidalgo, A. P., Leonardi, J. L. (2013). Introdução à teoria das molduras relacionais (Relational Frame Theory): principais conceitos, achados experimentais e possibilidades de aplicação. Persperctivas em Análise do Comportamento, 4, 32-50.

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