[Artigo] Podem os aplicativos desenvolverem habilidades desejáveis?

Nas últimas décadas, as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) passaram a ser utilizadas pela humanidade como forma de otimizar a resolução de problemas em diferentes áreas da vida cotidiana, como na educação (Amem & Nunes, 2006; Barbosa, Moura & Barbosa, 2004; Borges, 2009; Cardoso, Pimenta & Pereira, 2003; Martínez et al., 2017; Ricoy & Couto, 2009; Simões & Gouveia, 2008), nos serviços públicos (Beato, 2008; Furtado, 2002; Guimarães & Godoy; 2012; Matsuda et al., 2015; Moreira & Maia, 2013; Pereira & Silva, 2010), no desenvolvimento sustentável (Frey, 2003; Nascimento et al., 2007) etc. Imagine se a intervenção comportamental também fosse completamente acessível nas residências das pessoas autistas e realizada por meio de um smartphone! Tendo isso em vista, Trevisan et al. (2021) realizaram uma busca com o intuito de identificar quais aplicativos disponíveis nas lojas virtuais foram avaliados em trabalhos científicos como ferramentas de intervenção comportamental e mapear suas principais características.

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[ARTIGO] Ansiedade Social: melhor sozinho ou acompanhado?

A ansiedade como um transtorno tem sido definida como um estado emocional desagradável relacionado ao medo desproporcional ao real (Gentil, 1997). De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-V) (APA, 2013), o medo é a resposta emocional a uma ameaça iminente real ou percebida enquanto a ansiedade é uma resposta de antecipação dessa ameaça. Os transtornos de ansiedade se diferenciam do medo e da ansiedade adaptativos, isto é, quando passam a exercer prejuízo significativo na vida da pessoa ocorrendo de maneira persistente e excessiva (APA, 2013).

No caso do transtorno de ansiedade social (fobia social), o indivíduo sente medo e se esquiva de situações e interações sociais em que possa ser avaliado. Por exemplo, situações em que possa ser observado comendo ou bebendo, em que encontra indivíduos que não sejam familiares e amigos próximos ou situações que exijam desempenho diante de outras pessoas (APA, 2013).

Sun, Harris & Vazire (2019) avaliaram que as pessoas se sentem mais felizes quando estão em interação social em comparação a quando estão sozinhas. A partir disso, Goodman, Rum, Silva & Kashdan (2021) buscaram investigar se pessoas com Transtornos de Ansiedade Social experimentam os benefícios emocionais das interações sociais descritos na literatura de maneira semelhante aos indivíduos não ansiosos.

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[CONCEITOS BÁSICOS] Como aprendemos a falar sobre sentimentos?

Aprendemos a descrever objetos – ou o que analistas do comportamento chamam de emitir tatos verbais-  a partir de instâncias em que uma resposta verbal, ao ser compatível com o estímulo que ela descreve, é consequenciada com reforço social – por exemplo, quando batemos palma e dizemos “muito bem!” para uma criança que diz “mamãe” na presença da mãe, e não oferecemos o mesmo reforço quando ela diz essa palavra na presença de qualquer outra pessoa. Como é possível, então, aprender a descrever eventos encobertos – sentimentos e pensamentos? Como uma comunidade pode reforçar a correspondência de uma resposta verbal a um estímulo a qual ela não tem acesso direto?  No texto resumido hoje para o boletim, Skinner (1945) busca explicar o que realmente controla uma fala como “estou com raiva”, em um exercício que ele chama “análise operacional de termos psicológicos”.

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[Artigo] Skinner e o contracontrole: uma análise a partir da RFT

O artigo de Spencer et al. (2022) busca analisar o conceito de contracontrole (Skinner, 1953) argumentando que ele foi pouco utilizado no campo da análise comportamental. Contracontrole é definido por Skinner como um comportamento operante cuja função é tentar fugir ou esquivar de condições aversivas impostas por outro indivíduo (controlador). Para os autores, essa definição chama a atenção devido às características que inclui no conceito, as quais possibilitam avaliar muitas situações socialmente relevantes, desde conflitos interpessoais, coerção, até questões sociais mais complexas, como crises no clima sociopolítico e na saúde pública. Isso faz com que, apesar de pouco utilizado, esse seja um conceito muito relevante.

Os autores defendem, então, que retomá-lo e ampliar a nossa compreensão sobre ele pode ter implicações para a construção de contingências sociais que minimizem os efeitos danosos do controle aversivo sobre o comportamento. Sugerem, também, atualizar o conceito skinneriano através das concepções de comportamento governado por regras e da teoria das molduras relacionais (RFT).

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[ARTIGO] Precisamos falar sobre alertas de gatilhos

Com o aumento das reivindicações e lutas contemporâneas para que temas sensíveis sejam tratados de formas mais responsáveis, produtores e plataformas de conteúdo (acadêmico e cultural) têm inserido novas práticas na veiculação de seus materiais. Dentre elas, uma das mais difundidas é a chamada “alerta de gatilho” (trigger warning). Ela consiste em avisar que o conteúdo prestes a ser apresentado contém elementos que podem evocar respostas emocionais desagradáveis relacionadas a experiências dolorosas possivelmente vividas pelo espectador. Assim como ocorre com outras práticas culturais dessa natureza, o uso dos alertas de gatilho encontra argumentos contundentes tanto em sua defesa quanto em seu ataque. Dessa forma, para que essas práticas, especificamente os alertas de gatilho, possam ser melhor aplicados, convém perguntar: o que dizem as pesquisas a seu respeito?

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[Artigo] Para onde vão os autistas depois que crescem? E as mulheres que nascem autistas?

Você já imaginou se, além de receber todas as cobranças que chegaram com a vida adulta, você também tivesse perdido o apoio daqueles que mais te ajudam? É o que acontece com a maioria dos autistas atualmente. A Análise do Comportamento Aplicada tem sido considerada como uma referência para intervenção em casos de autismo (CDC, 2022). Contudo, a maioria dos analistas do comportamento tem se especializado no atendimento de crianças autistas. Quando esses indivíduos chegam à adolescência ou à vida adulta, são frequentemente dispensados da terapia e têm dificuldade de encontrar outros profissionais devidamente qualificados para darem continuidade ao atendimento. Para atendimento das mulheres autistas, o déficit de prestadores de serviço é ainda maior, tendo início desde o processo de diagnóstico na infância e se estendendo até a vida adulta. Diante dessas e outras lacunas observadas na área do autismo, Mizael e Ridi (2022) desenvolveram um ensaio teórico com o objetivo de sugerir mudanças para que a comunidade de analistas do comportamento passe a incluir grupos igualmente importantes em suas pesquisas e prestação de serviços.

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[ARTIGO] O quanto o controle social influencia nosso comportamento?

Nossos comportamentos são influenciados por diversas variáveis (tanto antecedentes quanto consequentes). Dentre as variáveis antecedentes, estão os estímulos discriminativos e as regras que podem ser físicas ou sociais. Para Skinner (1969/1980) regras são estímulos discriminativos que exercem controle por estímulos verbais especificadores de contingências, especificando 1) os comportamentos a serem emitidos, 2) as condições sob as quais o comportamento ocorre e 3) as possíveis consequências. Schlinger e Blakely (1987) afirmam que regras funcionam como estímulos alteradores de função pois podem vir a apresentar efeitos mais tardiamente, enquanto que os estímulos discriminativos apresentam efeitos imediatos.

Apesar das definições que temos sobre controle de contingências, muitas vezes não é fácil diferenciar quando esse controle está sendo exercido por regras ou pela interação entre regras e contingências. O comportamento governado por contingências é estabelecido pela relação direta entre respostas e suas consequências imediatas. Enquanto isso, o comportamento governado por regras resulta de um controle através de estímulos antecedentes verbais (orais ou escritos), favorecendo uma aprendizagem mais rápida e de comportamentos mais complexos (Skinner, 1974/2000).

Modenesi, Freitas e Meira (2020) investigaram os efeitos do controle social (monitoramento do pesquisador) na sensibilidade do comportamento às mudanças nas contingências após diferentes histórias de aprendizagem, por regras ou por contingências.

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[ARTIGO] Pensando com o coração, com a barriga e com os pés: Uma apresentação da cognição corporeada de Andy Clark.

O cérebro é, evidentemente, um órgão fundamental para a sobrevivência de muitos animais. Mas, para humanos, além de um órgão, o cérebro tornou-se um símbolo – sua imagem é associada a construtos como “mente”, “personalidade” e até “essência”. Se perguntarmos para várias pessoas qual o órgão mais importante, ou ainda, qual órgão é mais “você”, provavelmente grande parte delas diria o cérebro. A discussão sobre o  papel do cérebro na cognição e nos modelos de ser humano é central tanto na análise do comportamento como em outras abordagens psicológicas e filosóficas sobre a natureza das pessoas. Aqui, será resumido o ensaio de Marques-Santos & Resende (2022) em que os autores explicam o conceito de cognição corporeada (do inglês, embodied cognition) de Andy Clark e apresentam o contexto para sua relevância.

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[ARTIGO] Relação entre constructos hipotéticos e explicações mecanicistas: qual sua utilidade para as pesquisas em Análise do Comportamento?

Como discutimos em outro texto, o uso de constructos hipotéticos na Análise do Comportamento é um tema polêmico e importante. Essa discussão teve como base os apontamentos feitos por Eckard e Lattal (2020) sobre o conceito de relógio interno (do inglês internal clock), amplamente utilizado nas pesquisas quantitativas sobre timing (em que se analisam fenômenos como a distribuição temporal de respostas em diferentes esquemas de reforçamento). Apresentamos as propostas de Eckard e Lattal para a área do timing, que são pautadas em uma visão estritamente skinneriana, sugerindo que o padrão temporal do responder se deve a variações nas contingências, não sendo necessária a inclusão de variáveis relacionadas ao próprio organismo na explicação. Terminamos a resenha com a pergunta: seria essa a única forma de discutir a variação nos padrões de resposta? Para enfrentar essa questão, Sanabria (2020) levanta críticas possíveis aos apontamentos de Eckard e Lattal (2020).

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Terapia de Aceitação e Compromisso: um quase experimento acerca dos efeitos sobre Função Imune e Limitações de Atividade em pacientes com Síndrome do Intestino Irritável

O artigo de Shakernejad, Khalatbari e Alilou (2021) relata uma avaliação da aplicação da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) em pacientes com a Síndrome do Intestino Irritável (IBS – sigla em inglês), uma condição associada a prejuízos na qualidade de vida de uma parcela significativa da população (Defrees e Bailey, 2017; Fadgyas-Stanculete et al., 2014; Gracie et al., 2017). Tais relatos são importantes pois podem compor um conjunto de evidências que sustentem e/ou levem a aprimoramentos de nossas práticas.

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[Artigo] Tato, intraverbal ou tato-intraverbal?

“– Olha, um sapo!
A criança se orienta para a figura correspondente, aponta para ela e diz ‘sapo’ e depois olha para o pai. O pai diz: ‘isso mesmo, é um sapo. O que é isso?’ e a criança responde: ‘sapo’. O pai então diz: ‘o sapo é verde’, e a criança repete ‘verde’. O pai responde: ‘sim, o sapo é verde, de que cor é?’ e a criança diz ‘verde’”.

(degli Espinosa, 2021a, p. 44, tradução nossa)

O analista do comportamento que se depara com esse diálogo pode rapidamente afirmar que se trata de um episódio intraverbal. Mas será que é mesmo?

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[ARTIGO] A inclusão não termina com a inserção do aluno com TEA em sala de aula

Em 2012 foi decretada a Lei 12.764 que institui formalmente o autismo como deficiência e em seu artigo 7 proíbe a recusa da matrícula do aluno com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Contudo, a inclusão no contexto escolar ultrapassa a esfera de ocupar vagas nas salas de aula, incluindo também a necessidade de atender as demandas educacionais individuais de cada criança (Lei nº 8.069, 1990).

Artigos como o de Camargo e Bossa (2012) e de Matos e Mendes (2014) têm apontado para a necessidade da implementação de práticas pedagógicas que levem em conta as dificuldades da criança e como os educadores podem proporcionar condições favoráveis para uma educação que vise a aprendizagem e as trocas sociais do aluno com TEA.

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[ABPMC Comunidade] Livro “Contribuições das ciências do comportamento em tempos de pandemia”

O projeto ABPMC Comunidade é uma iniciativa da Associação Brasileira de Ciências do Comportamento que, desde 2002, tem como objetivo “servir à comunidade, oferecendo conhecimento, ferramentas e serviços confiáveis e baseados em evidências científicas” (Oliani et al., 2021, p. 9). O mais recente resultado destes esforços dos profissionais na comunidade analítico-comportamental brasileira é o livro “Contribuições das ciências do comportamento em tempos de pandemia”, organizado por Simone Oliani, Catarine Souza, Gabriela Amor, Liane Dahás e Denis Zamignani.

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[ARTIGO] “Mas, professor, o ratinho tá contando o tempo?”

Frequentemente, tratar com suspeita os constructos hipotéticos é ensinado logo ao início do contato com o Behaviorismo Radical. Isso porque eles seriam ficções explicativas que acabariam por nos distrair das causas relevantes do comportamento, como a história de reforçamento do organismo, o que tornaria mais difícil alcançar os objetivos das ciências comportamentais: previsão e controle (Skinner, 2003). No entanto, Eckard e Lattal (2020) sugerem que, ainda hoje, são elaboradas explicações psicológicas para fenômenos comportamentais que utilizam constructos hipotéticos. Mas, qual é o motivo de essa prática continuar? Quais são os seus efeitos?

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VII Encontro de Estudantes da ABPMC – Veja os resumos dos projetos apresentados! (Parte 2)

O Encontro de Estudantes da Associação Brasileira de Ciências do Comportamento (ABPMC) é um evento que ocorre anualmente no período do Encontro anual da ABPMC. O principal objetivo do Encontro de Estudantes é a integração a nível nacional de estudantes de Psicologia interessados na Análise do Comportamento e a disseminação desta ciência. Considerando que os estudantes de hoje serão os principais responsáveis pelas futuras inovações da ciência, ter um espaço que dê voz às suas ideias é fundamental para encorajar e incentivar o desenvolvimento das próximas gerações de analistas do comportamento, além de oferecer um relance do que podemos esperar deles nos próximos anos.

O VII Encontro de Estudantes ocorreu de forma gratuita no dia 28 de agosto de 2021. Inspirado no Encontro de Estudantes de 2019, o evento consistiu em convidar estudantes de graduação a idealizarem intervenções criativas e transformadoras, embasadas na Análise do Comportamento, para modificar comportamentos socialmente relevantes em um grupo de indivíduos. O evento ocorreu com a intenção de dar voz às ideias de estudantes de graduação sobre como a Análise do Comportamento pode contribuir para um mundo melhor, sendo os pontos chaves a criatividade e a disposição. Por isso, as propostas não precisavam ser necessariamente factíveis, seja em termos de orçamento ou de acessibilidade institucional.

Com o objetivo de valorizar ainda mais os trabalhos realizados pelos discentes, havíamos compartilhado os resumos de quatro grupos, apresentados no VII Encontro de Estudantes, disponíveis aqui. Agora apresentamos o restante dos resumos.

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