[Artigo] Um breve tutorial sobre a Terapia de Aceitação e Compromisso à luz da Teoria das Molduras Relacionais

A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) é um modelo terapêutico que tem sido cada vez mais explorado mundialmente, com um alto número de evidências de sua eficácia em diversos campos. Sua relação com a Teoria das Molduras Relacionais (RFT) é explicitada em muitos dos materiais da área, mas nem sempre fica tão clara. Ambas se baseiam na ideia de que a linguagem traz um sofrimento único aos seres humanos, e essa ideia é conceitualizada e explorada a partir do conceito de responder relacional arbitrariamente aplicado (RRAA). Enquanto a RFT traz uma perspectiva básica do conhecimento, a ACT se constitui como uma proposta de intervenção voltada para lidar com as questões psicológicas levantadas a partir da linguagem e cognição.

Com o aumento das publicações de manuais voltados para a prática e com a busca por comunicação com profissionais das mais diversas áreas, muito do material da ACT tem sido construído com linguagem mais simples, com foco maior na instrumentalização do terapeuta, em detrimento da explicaçãodas bases por trás do modelo. McEnteggart, em seu texto “A brief tutorial on Acceptance and Commitment Therapy through the lens of derived relational responding”, publicado em 2018, argumenta que, embora a ligação entre base e intervenção venha sendo menos explorada, ela ainda existe e inclusive pode ser desenvolvida e explorada a partir de desenvolvimentos recentes da RFT. A elucidação dessa ligação pode se mostrar importante no contexto atual das terapias contextuais, caracterizado pelo retorno do foco aos processos básicos e à avaliação de evidências de eficácia.

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[Artigo] Análise funcional dos itens do Inventário de Estilos Parentais

A fim de contribuir com a produção científica e tornar clara a utilização de termos nos estudos de Análise do Comportamento, é recomendada a análise da relação entre as variáveis antecedentes/consequentes e a resposta, que devem ser a base da descrição do comportamento. Em 1945, Skinner já criticava a utilização de definições cotidianas, principalmente no ambiente científico, uma vez que estas não incluem a descrição de como operam, de como são evocados e/ou mantidos. Dentre a infinidade de temas abrangidos por essa ciência, está o estudo de Estilos Parentais e o desenvolvimento do Inventário de Estilos Parentais (Gomide, 2006). Por isso, o objetivo do estudo de Santos e Coelho (2020) foi fazer uma análise funcional (e definição operacional) dos itens deste Inventário.

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Raciocínios, julgamentos, associações, memorização, imaginação…o que tudo isso tem a ver com a Análise do Comportamento?

         Quando alunos da graduação em Psicologia são introduzidos aos princípios comportamentais, uma pergunta muito comum de ser feita é: “mas e a mente?”. Quando o professor de Análise do Comportamento ouve essa pergunta, busca explicar para os alunos como os chamados “processos mentais” podem ser analisados a partir de uma visão externalista, em que as variáveis ambientais (Variáveis Independentes – VIs) seriam suficientes para a explicação das ações do indivíduo (Variáveis Dependentes – VDs), pois os dois eventos encontram-se em uma relação funcional (mudanças na VD são explicadas a partir de alterações na VI, sem necessidade de inferir outro processo). Porém, ainda assim muitos alunos se questionam: “ok, entendi, mas para resolver coisas na minha vida, como decisões sobre caminhos a seguir ou tarefas para resolver, eu faço julgamentos, análises, raciocínios…isso tudo não é mental?”. Essas são dúvidas legítimas e muito comuns em pessoas que ainda não estão familiarizadas com a Análise do Comportamento. Além do mais, aprendemos desde criança que processos mentais são os responsáveis por nos levar a tomarmos algumas decisões, o que faz com que a lógica do behaviorismo radical seja contrária ao que o aluno aprendeu até então em sua vida. O texto de Miguel (2018), que se propõe a descrever possíveis estratégias presentes na resolução de problemas, poderá nos ajudar na tarefa de compreensão de alguns dos chamados processos cognitivos a partir de uma perspectiva comportamental.

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[Artigo] O que o jogo Dilema do Prisioneiro pode nos ensinar sobre autocontrole e comportamento social?

Os modelos da teoria dos jogos são tradicionalmente utilizados na Economia e Ciência Política, mas têm se tornado populares na Psicologia e Sociologia. Dentre tais modelos, podemos destacar o Dilema do Prisioneiro, um dos jogos mais empregados em Psicologia com o objetivo de investigar e analisar dilemas sociais. Para uma melhor compreensão do que seria o Dilema do Prisioneiro, vamos imaginar a seguinte situação: dois membros de uma quadrilha criminosa são presos. Cada um desses prisioneiros está em confinamento solitário sem meios de se comunicar com o outro. A polícia, sem provas suficientes para condenar um ou outro, oferece uma barganha incrível. Se um deles testemunhar contra o seu parceiro, ficará livre e o parceiro será condenado a 3 anos de prisão. Mas como nem tudo são flores, caso os dois prisioneiros testemunhem um contra o outro, ambos serão sentenciados a 2 anos de prisão. Os prisioneiros têm pouco tempo para tomar uma decisão e só podem saber o que o outro decidiu quando os dois tomarem a decisão irrevogável. A eles também é informado que ao outro prisioneiro está sendo oferecido o mesmo acordo. Preocupados com seu próprio bem-estar, os prisioneiros pensam em formas de minimizar sua própria sentença. (Poundstone, p. 118).

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Reforma Psiquiátrica Brasileira sob uma perspectiva comportamentalista

O estudo de Lima e Carrara (2018) visou discutir alguns princípios da Reforma Psiquiátrica Brasileira sob a ótica da Análise do Comportamento e do Behaviorismo Radical, apontando possíveis contribuições da área, principalmente através da análise comportamental da cultura, que pode apresentar um possível aporte para a Reforma Psiquiátrica – como no fornecimento de ferramentas de análises para as mudanças de práticas culturais.

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Venha publicar na Coleção Comportamento em Foco (Volume 13)!

O XXIX Encontro Brasileiro de Psicologia e Medicina Comportamental infelizmente chegou ao fim. Muitos trabalhos incríveis foram apresentados, com o que há de mais recente e inovador na Análise do Comportamento no Brasil. Para evitar que todo o esforço despendido pelos palestrantes durante o estudo, pesquisa e preparação das apresentações permaneça somente na memória (e anotações) de quem esteve no Encontro, existe a coleção Comportamento em Foco. As submissões para o 13º volume da coleção, referente ao Encontro desse ano, estão abertas até o dia 30 de novembro de 2020.

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[Evento gratuito] JAC Online: Venha conferir o que a Análise do Comportamento pode contribuir no enfrentamento da pandemia

A pandemia do coronavírus (COVID-19) trouxe diversas mudanças na rotina. Muitas pessoas passaram a trabalhar e estudar em casa, na frente de um computador; conviver intensamente com quem mora, mas isoladas das demais; abandonar ou adaptar atividades importantes de lazer e bem-estar; adotar novos hábitos para prevenir a contaminação do vírus; e discutir as implicações políticas e econômicas da pandemia. No âmbito da psicologia, não faltaram alertas e discussões sobre os impactos psicológicos dessas mudanças drásticas e abruptas nas vidas das pessoas. A maior parte dessas informações foi disseminada por meio de palestras, textos e lives espalhadas em congressos, portais de notícias, canais de Youtube, perfis de Instagram e Facebook e jornais científicos. Tanta informação proveniente de múltiplas fontes torna um desafio acompanhar tudo que tem sido disseminado. Felizmente, a Jornada de Análise do Comportamento (JAC) Online foi criada para remediar isso.

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[Artigo] Uma defesa das operações motivadoras de Jack Michael

O artigo de Miguel (2019) visa debater algumas proposições acerca da noção de operações motivadoras (OMs, ou MOs, do inglês motivating operations) no estudo do comportamento humano, posicionando, de um lado, as acepções propostas por Jack Michael a respeito do conceito, e de outro, posicionamentos de comentadores existentes na literatura da área. A tarefa a que se propõe Miguel (2019) é a de defender a tese de Jack Michael no que diz respeito à análise do comportamento a partir da noção de OMs. 

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Ativação comportamental: como se manter atuante durante o isolamento social

Com a alta taxa de contaminação do coronavírus (SARS-CoV-2) e o crescente número de casos registrados ao redor do mundo, profissionais de diversos países estão se dedicando para desenvolver medidas para conter a disseminação do vírus, para diminuir a sobrecarga de trabalho dos profissionais da saúde e para minimizar os impactos na vida das pessoas que adotam o isolamento social. O isolamento social tem sido indicado no Brasil desde o mês de março de 2020, como forma de reduzir a probabilidade de contágio na população.  Porém, segundo Gotti et al (2020), os impactos do isolamento social, a partir do estudo dos efeitos em outras pandemias, podem incluir tédio, irritabilidade, depressão, ansiedade e transtornos pós-traumáticos e gravidade dessas complicações estão relacionadas com o tempo de isolamento. Por isso, os autores apresentam uma proposta de adaptação das técnicas da ativação comportamental para o momento de isolamento, contendo uma lista de atividades para guiar os usuários de um site a se engajarem em comportamentos adequados.

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[Entrevista] Howard Rachlin: As vantagens de uma análise molar do comportamento e críticas ao Behaviorismo Radical Skinneriano

O Boletim Contexto teve o prazer de receber Howard Rachlin, Professor Emérito de Psicologia na Universidade Stony Brook, em Nova Iorque, para uma entrevista. Rachlin inicialmente desenvolveu pesquisas na análise quantitativa do comportamento de escolha, conquistando seu lugar como um grande estudioso no campo da lei da igualação e do desconto temporal e probabilístico de consequências. Juntamente com William Baum, foi um dos grandes responsáveis pelo advento da análise molar do comportamento (em oposição à molecular). Nas últimas décadas tem proposto uma abordagem alternativa ao Behaviorismo Radical para a compreensão do comportamento: o Behaviorismo Teleológico. Nesse sentido, sua carreira tem sido marcada tanto por avanços empíricos notórios em áreas centrais da Análise do Comportamento quanto por questões polêmicas no âmbito teórico e filosófico. Ambos aspectos são abordados por ele durante a entrevista.

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[Artigo] Um estudo sobre padrões de intervenções voltadas ao self em jovens adultos

O tema do self e sua construção tem sido objeto de estudo no contexto da Teoria das Molduras Relacionais. Uma pesquisadora que se destaca no tema é Louise McHugh, atualmente vinculada à University College Dublin. No artigo “Patterns of relational responding and a healthy self in older adolescents”, publicado em 2019, Orla Moran e Louise McHugh descrevem um estudo experimental realizado com jovens de 18 a 25 anos que visa examinar a relação entre os construtos “self como distinção” e “self como hierarquia” e medidas de estresse, depressão e ansiedade. O artigo, embora curto, passa por discussões importantes e reúne referências muito ricas sobre o tema.

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[Encontro ABPMC] Grupo de Trabalho: História da Análise do Comportamento e integração de projetos

Em uma perspectiva analítico-comportamental, é impossível compreender o presente sem conhecer o passado. O comportamento atual de um indivíduo só faz sentido à luz do histórico de contingências em nível filogenético, ontogênico e cultural. O mesmo é verdadeiro para a nossa ciência e comunidade científica. Com isso em mente, a Comissão de História da ABPMC organizou um espaço dentro do XXIX Encontro da ABPMC intitulado “Grupo de trabalho a respeito da historiografia da ABPMC”.

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[ABPMC] Novidades na Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva (RBTCC)

Desde 1999, a Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva (RBTCC) é uma revista de referência em Psicologia e Análise do Comportamento no Brasil. Com mais de 580 artigos de pesquisa conceitual, básica e aplicada publicados, e mais de 4600 citações, ela tem buscado constantemente se reinventar e inovar com a missão de contribuir para a compreensão do comportamento e da cognição.

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[Resenha] “Bem, acho que foi a força de velhos hábitos…”: como dados experimentais sobre a ressurgência podem nos ajudar na prática clínica?

         Pra quem gosta de futebol, talvez conheça bem esse exemplo: (a) um time segue um certo padrão de jogo, (b) depois de um tempo o treinador resolve mudar e até que a nova ideia funciona, pois o time ganha seus jogos, mas (c) posteriormente o time, com o novo padrão tático, começa a perder suas partidas e quando isso acontece parece que durante o jogo (d) alguns jogadores começam a se posicionar em campo ou fazer jogadas de formas semelhantes às que faziam antes da nova tática, ao invés de seguir o que foi treinado. Embora o exemplo seja de futebol, o mesmo fenômeno pode ser visto em vários outros episódios, como em intervenções clínicas, quando o cliente (a) apresenta determinado padrão que produz alguns reforçadores positivos e também estimulações aversivas, (b) aprende em terapia um novo padrão, que a princípio produz os mesmos reforçadores positivos e diminui ou anula estimulações aversivos, mas (c) o novo padrão passa agora a não ser reforçado e produz estimulações aversivas, e o cliente (d) começa a demonstrar ações semelhantes às que apresentava no início do processo terapêutico. Situações como essas nos fazem refletir sobre possíveis processos comportamentais que podem ser responsáveis por esses eventos, e o experimento de  Fontes, Todorov e Shahan (2018) pode nos ajudar a compreendê-los melhor.

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[Artigo] A poesia tem lugar na análise do comportamento?

Em acordo com a máxima “onde há pessoas se comportando cabe a análise do comportamento”, Bernard Guerin (2020) propôs uma exploração, baseada nos princípios comportamentalistas, dos impactos da poesia em leitores e ouvintes. As perguntas norteadoras do autor (o que a poesia faz com as pessoas e como ela o faz), levaram a algumas conclusões: (i) a forma de escrever poesia atua perturbando as normas gramaticais da escrita e tendo efeito nas ações, conversas e pensamentos dos leitores; (ii) essas perturbações nas normas gramaticais (apresentação gráfica, rimas, comprimento da linha, etc) ajudam também a manter a atenção do leitor, uma vez que a falta de coerência gramatical faz com que a leitura da poesia se torne mais difícil. Além disso, Guerin (2020) também pontua o espaço da poesia em aplicações clínicas nos processos psicoterápicos e na saúde mental das pessoas.

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