[Artigo] Análise do Comportamento como Prática Política

Os analistas do comportamento têm discutido questões éticas desde os primeiros momentos em que a Análise do Comportamento começou a demonstrar seu potencial para explicar e intervir sobre problemas sociais. Tais questões envolvem tanto os limites da aplicação da análise do comportamento quanto a avaliação desses problemas em diferentes contextos. Dentre os trabalhos realizados na área, destacam-se as produções de James G. Holland voltadas para aspectos importantes, mas nem sempre evidentes da prática dos analistas do comportamento. Ao longo do texto serão apresentadas as principais críticas e sugestões realizadas por Holland à aplicação da Análise do Comportamento e, posteriormente, uma avaliação sobre sua relevância no cenário atual, uma vez que, apesar de serem direcionadas às práticas dos analistas do comportamento estadunidenses até a década de 70, são problemas que permanecem atuais.

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“O que é metacontingência e por que é (des)necessária?”

Leitores e leitoras,

O Boletim Contexto tem a enorme satisfação de trazer mais um debate, agora sobre o tema Metacontingências. É característica desta modalidade de publicação trazer textos mais extensos do que os publicados semanalmente no blog, visto a necessidade de garantir que os convidados tenham a possibilidade de nos contemplar com uma discussão com a profundidade e cuidado que o tema requer. Convidamos para compor este debate o professor emérito e pesquisador associado da Universidade de Brasília, Dr. João Claudio Todorov, a Dra. Camila Muchon de Melo, professora adjunta do Departamento de Psicologia Geral e Análise do Comportamento da Universidade Estadual de Londrina, o Dr. Kester Carraca, professor adjunto do Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências da UNESP e, por fim, o professor Dr. Bernard Guerin da University of South Australia. Vale ressaltar que o texto do Dr. Bernard Guerin foi escrito originalmente em inglês, e depois traduzido pelo colaborador Christian Reis para o português. A escolha da ordem de apresentação dos convidados e de seus comentários visou unicamente facilitar a compreensão para os leitores. Leitores e leitoras estão convidados(as) a deixar também os seus comentários.

Nosso mais profundo agradecimento aos convidados por terem aceitado participar e por dedicarem seu precioso tempo para tecer reflexões sobre tal tema e suas implicações.

Comentários do Dr. João Claudio Todorov

A palavra metacontingência foi proposta em 1986 por Sigrid Glenn (Glenn, 1986) para se referir a efeitos coletivos a médio ou longo prazos de operantes individuais independentes. Em 1987 foi usada como um conjunto de contingências e metacontingências que programa um determinado Produto Agregado (Todorov, 1987). Durante 20 anos aparece principalmente em artigos teóricos, como o que se dedica a explicar o comportamento dos eleitos no Congresso americano (Lamal & Greenspoon, 1992).

Contingência é uma relação condicional entre dois eventos. No caso da contingência comportamental, se um comportamento ocorrer, então uma consequência ocorrerá em tais e quais circunstâncias. Uma consequência pode ocorrer sempre que o comportamento ocorre, ou depois de repetidas ocorrências do comportamento, ou dependendo do tempo decorrido desde a última ocorrência dessa consequência, ou dependendo de inúmeras combinações de tempo e número de respostas, e de relações fixas ou variáveis. Resumindo: o conceito de contingência comportamental abarca infindáveis exemplos de interações comportamento-ambiente, inúmeras das quais estão documentadas em livros e artigos científicos, como, por exemplo, na Revista Brasileira de Análise do Comportamento.

Metacontigência é uma relação condicional entre a colaboração de pelo menos duas pessoas (contingências comportamentais entrelaçadas) que resulta em determinado produto e alguma consequência programada por um ambiente cultural selecionador. Metacontingências podem ser classificadas de acordo com o tipo de relação de consequência (cerimoniais ou tecnológicas) e da especificação do produto agregado (conservadoras ou transformadoras), e de combinações de relação de consequência e especificação do produto (por exemplo, cerimonial conservadora, tecnológica transformadora, etc., Todorov, 2013). Uma metacontingência não é apenas um jogo de contingências individuais de pessoas diferentes. Uma metacontingência consiste em contingências individuais entrelaçadas, que produzem um mesmo efeito e levam a uma mesma conseqüência (Lamal & Greenspoon, 1992). No caso das práticas culturais, o agente a ser selecionado é o efeito (Produto Agregado) produzido pela prática (as contingências comportamentais interligadas). A variação é proporcionada por permutações no comportamento dos indivíduos que participam da prática (Glenn, 1991, pp. 62-63). Há uma ênfase no processo seletivo do entrelaçamento de muitos operantes e, consequentemente, na transmissão de padrões comportamentais através do tempo, reforçando também a ideia de que a unidade de análise pode ser a relação entre o entrelaçamento e o produto agregado (Glenn, 1988), a descrição das funções de diferentes efeitos ambientais produzidos pelo entrelaçamento (Glenn & Malott, 2004) e uma diferenciação entre processos de variação e seleção que ocorrem em nível individual (relações de macrocontingência) e processos de variação e seleção que ocorrem em nível cultural (relações de metacontingência, Malott & Glenn, 2006; Martone & Todorov, 2007; Glenn et al., 2016).

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[Artigo] Apenas um dos diversos motivos para defender a intervenção psicológica na escola

Para muitas crianças a escola é o primeiro ambiente que permite o estabelecimento de novos tipos de interações sociais para além da família. Essas interações são importantes para que elas possam se desenvolver como indivíduos, mas também como membros de um grupo (aprender sobre regras de convivência, desenvolver habilidades interpessoais, etc) e de uma sociedade complexa (aprender sobre cidadania e valores éticos, por exemplo). 

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Para além da privacidade

A subjetividade humana é ponto de amplo debate no âmbito das diferentes teorias psicológicas e, no âmbito da Análise do Comportamento, o assunto é tradicionalmente discutido a partir do conceito de eventos privados. Pompermaier e Lopes (2017) se esforçam em construir uma análise crítica acerca do conceito e da noção de privacidade, identificando algumas teses problemáticas na apreciação dos eventos privados, assim como indicando possíveis caminhos alternativos para o tratamento das questões relativas à subjetividade nos limites da filosofia comportamentalista radical.

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[Artigo] Uma análise de relatos verbais de alunas sobre situações de assédio sexual no contexto universitário

Tendo em vista que a dominação masculina, em nossa cultura ocidental, se pauta em uma relação estrutural, ou seja, é mantida por meio de práticas culturais que são selecionadas e mantidas por meio das gerações, Linhares e Laurenti (2018) investigaram tais práticas no ambiente universitário, por meio da análise de relatos verbais de alunas postados em uma página do Facebook. As autoras ressaltam a importância da denúncia e da criação de instâncias na universidade que possam acolher, encaminhar, discutir e prevenir casos de assédio sexual.

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[Artigo] O que temos a dizer sobre a cooperação?

O que os estudos experimentais têm a dizer acerca da cooperação? A cooperação pode se relacionar com outras áreas, por exemplo, com a análise do comportamento, áreas do desenvolvimento e da evolução? Estas foram perguntas que três pesquisadores da Universidade de São Paulo se perguntaram e buscaram discutir por meio deste artigo científico. Assim, o artigo de hoje vai apresentar o trabalho desenvolvido por Suarez, Nascimento e Benvenutti, 2018.

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[Artigo] O que (não) há de “complexo” no comportamento? Behaviorismo radical, self, insight e linguagem

Uma das principais discussões envolvendo a Análise do Comportamento se dá no seu embate com as teorias cognitivistas de explicação comportamental. De orientações filosóficas distintas, ambas as empreitadas procuram explicar os comportamentos de animais e humanos a partir de seus próprios pressupostos teóricos. Nesse artigo, Zilio e Neves Filho (2018) analisam a noção de complexidade envolvida na explicação do comportamento. Por meio da análise de experimentos de cunho cognitivista e suas respectivas replicações por behavioristas radicais, são revisitados alguns fenômenos tais como “self”, “insight” e linguagem, e suas implicações para cada uma das ciências. O próprio conceito de complexidade se torna, eventualmente, alvo de debate. 

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[Artigo] Felicidade e prazer: um diálogo entre Epicuro e Skinner

A interseccionalidade da Análise do Comportamento com outras áreas do conhecimento vêm crescendo nos últimos anos. Um desses campos é o diálogo das teorias filosóficas clássicas com o comportamentalismo radical. Tamura e Laurenti (2017) propõem possíveis interlocuções da filosofia epicurista e a skinneriana. O conceito central do artigo é a noção de felicidade, analisado pela ótica do antiessencialismo e do controle das ações do indivíduo, a fim de encontrar um equilíbrio na busca pela vida dos prazeres.

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[Artigo] Existe lugar para estatísticas na ciência do comportamento?

Eu não sei vocês, mas saber se “existe lugar para estatísticas na ciência do comportamental” é uma questão que me faz pensar. Hoje, vamos discutir sobre o texto de Young (2017). No texto de  Young, discute-se sobre o ceticismo em relação à estatística na análise do comportamento, apresenta algumas práticas comuns utilizadas por analistas do comportamento e – spoiler – propõe que a análise do comportamento é um local apropriado para o uso de estatística. Ficou curiosa (o)? Então, vamos lá!

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[Resenha de Livro] B. F. Skinner: Uma Biografia do Cotidiano Científico

O livro “B. F. Skinner: Uma Autobiografia do Cotidiano Científico”, de Robson Nascimento da Cruz, tem como objetivo principal fazer compreender que a ciência é mais do que está presente nas descrições dos resultados científicos é: prática social. Compreender o behaviorismo radical é saber da inevitabilidade da relação entre a vida cotidiana e os fatos científicos pesquisados por Skinner. É perceber como as condições da sua história pessoal e institucional produziram singularidades em seu projeto científico, assim como, na recepção do seu pensamento e, também, na organização social dos primeiros praticantes de sua abordagem psicológica. Assim, esclarece que a neutralidade de uma ciência não é possível.

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[Artigo] Possibilidades de investigações analítico-comportamentais sobre o racismo institucional

 

Nesse artigo, os autores se propuseram a elencar possibilidades de investigação empírica em um dos contextos nos quais se faz presente o racismo institucional: as abordagens policiais. A maioria dos brasileiros (54,9% de acordo com o IBGE de 2016) declara sua cor como negra (preta ou parda). Mas isso não impede que o preconceito racial ocorra em diversos contextos, como na universidade, instituições de saúde, vida social, etc. Uma análise funcional do comportamento individual considerado preconceituoso é fundamental pois topografias semelhantes nem sempre envolvem as mesmas funções. Recentemente, estudos sobre o preconceito racial tem adotado uma perspectiva que tira o foco do comportamento individual e enfatiza os processos culturais envolvidos (Lopez, 2012; Trad et al, 2016, 2017; Weichert, 2017). Nessa direção têm se discutido, por exemplo, o racismo institucional, que pode ser definido como “o fracasso das instituições e organizações em prover um serviço profissional e adequado às pessoas em virtude de sua cor, cultura, origem racial e étnica” (Brasil, 2006, p. 22). 

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[Artigo] Uma Análise do Conceito de “Eu” nos Textos de B. F. Skinner

Uma das grandes críticas endereçadas a filosofia skinneriana, o comportamentalismo radical, diz respeito a sua suposta negligência em relação a noções como individualidade, e subjetividade. Um dos conceitos centrais nessa discussão parece ser a noção de “eu”, tradicionalmente utilizada no campo de conhecimento psicológico, e afeita à lógicas de explicação internalistas e causais. Tendo como pano de fundo tal discussão, Malacrida e Laurenti (2018) procuram esboçar os limites da acepção de “eu” no âmbito da filosofia comportamentalista radical. Para tanto, recorrem às noções de auto-observação, autodescrição, autoconhecimento, autocontrole, autogoverno e autoedição para propor uma interpretação do “eu” alternativa àquela característica de doutrinas mentalistas.

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Abertura da chamada de publicação da Comportamento em Foco

Caros(as) Associados(as) da ABPMC e congressistas do Encontro Brasileiro de Psicologia e Medicina Comportamental,


Comunicamos o novo prazo para submissão de trabalhos à Comportamento em Foco. Convidamos a submeterem seus manuscritos autores que apresentaram trabalhos nas modalidades de palestra, mesa redonda, simpósio, sessão coordenada, minicurso ou primeiros passos nas edições de 2018 e/ou de 2019 do Encontro Brasileiro de Psicologia e Medicina Comportamental (realizadas em São Luís-MA e Goiânia-GO). Submissões serão aceitas até 06 de Outubro de 2019, e deverão ser encaminhadas em conformidade com as diretrizes para autores e o modelo de capítulo, para o e-mail comportamentoemfoco@abpmc.org.br

Contamos com vossas submissões para a divulgação da produção nacional em Análise do Comportamento.

Atenciosamente,

Angelo A. Sampaio
César A. A. Rocha

Diego Zilio
Monalisa F. F. C. Leão
Comissão Editorial da Coleção Comportamento em Foco
Comissão de Publicação e Editorial da ABPMC

[Artigo] Cultura do estupro: considerações sobre violência sexual, feminismo e Análise do Comportamento

Nos últimos anos a Análise do Comportamento vem se propondo a estabelecer diálogos com diversas áreas do conhecimento. Um dos férteis diálogos, neste contexto, se dá na interlocução das teorias feministas com os pressupostos analítico-comportamentais. Tendo isso em vista, Freitas e Morais (2019) apresentam uma discussão que visa estabelecer o conceito de cultura do estupro como peça chave no âmbito desse debate. A cultura do estupro, segundo as autoras, pode ser analisada a partir de um conjunto de contingências específicas que geram comportamentos característicos da violência sexual. O trabalho apresenta possibilidades de análise dessa problemática utilizando-se de um viés analítico-comportamental para descrever tais práticas de dominação.

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CARTA ABERTA À COMUNIDADE CIENTÍFICA: COMO INCLUIR MÃES NOS CONGRESSOS

“A comunidade científica vem discutindo temas muito importantes: inclusão, questões de gênero e raça, feminismo. Nós queremos dar a nossa contribuição sobre um aspecto que nos é muito caro: a maternidade – mais especificamente, a participação de mães em congressos e eventos científicos. É difícil explicar, entender e pensar o que mães precisam para serem incluídas em situações como os congressos. E, sendo mães, é difícil termos tempo até de contar para os outros quais são as nossas necessidades, mas precisamos falar! Nesta carta, apresentaremos algumas demandas que, mesmo simples diante da complexidade de se organizar um congresso, servem para que essas necessidades sejam satisfeitas e, assim, mães possam se sentir acolhidas novamente na comunidade.

Em nossa cultura, tarefas que envolvem cuidado com os filhos ainda são vistas como essencialmente femininas: o custo comportamental recai majoritariamente sobre as mulheres. Isso é tão relevante que a diferença salarial entre homens e mulheres se deve em grande parte às perdas salariais para as mulheres que são mães (Chung, Downs, Sandler, & Sienkiewicz, 2017; Grimshaw & Rubery, 2015). Não é raro ouvir de empregadores que é “justo” um certo nível de diferença de salário porque mulheres engravidam. Adicionalmente, uma pesquisa publicada pela Fundação Getúlio Vargas (Machado, Neri, & Pinho Neto, 2017) mostrou que, dois anos após a licença maternidade, metade das mulheres brasileiras havia saído do mercado de trabalho, na maioria das vezes, tendo passado por uma demissão sem justa causa após o retorno da licença. Os mesmos índices não são observados com homens que se tornam pais. Ou seja, a maternidade tem impactos reais sobre a vida profissional de mulheres!

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