Saúde mental e Responsabilidade Social – Um manifesto behaviorista.

Leitores e leitoras,

O Boletim Contexto tem a enorme satisfação de trazer um texto, de autoria de Liane Dahás, doutora e mestra em Teoria e Pesquisa do Comportamento pela Universidade Federal do Pará, Inaldo Júnior, especialista em Clínica Analítico Comportamental e formação em Terapias Comportamentais Contextuais pelo Paradigma – Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento, Denis Zamignani, doutor em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo, Roberto Alves Banaco, doutor em Ciências (área de concentração: Psicologia Experimental) pela Universidade de São Paulo, e Candido Pessôa, doutor em Ciências pelo Programa de Psicologia Experimental da USP, intitulado “Saúde mental e Responsabilidade Social – Um manifesto behaviorista”. Em tempos de pandemia do COVID-19, este texto nos convida a refletir sobre diversos aspectos relacionados ao tema, incluindo possibilidades de enfrentamento a partir de uma perspectiva analítico-comportamental. 

Nosso agradecimento aos autores por escolherem o boletim para tal publicação.

Boa leitura a todos!

Saúde mental e Responsabilidade Social – Um manifesto behaviorista.

“Nunca nos banhamos no mesmo rio duas vezes. O rio já não é o mesmo. E nós também não”. Heráclito (500 a.c.), filósofo – considerado o pai da dialética.

“Os homens agem sobre o mundo, modificam-no, e são modificados pela consequência de suas ações” Skinner (1957 d.c.), psicólogo, fundador do behaviorismo radical.

“Para o mundo que a gente vivia não vamos poder voltar”. Dr. Átila Iamarino (2020 d.c.), biólogo, doutor em microbiologia.

É tempo de olhar ao redor. De enxergar pra além de um palmo. Em entrevista recente à TV Cultura (Programa Roda Viva – exibido em 30/03/2020), o microbiólogo Átila Iamarino usou de uma bela metáfora ao propor como evitar que nosso planeta sucumba à pandemia do COVID-19: precisamos de velas para enxergar ao nosso redor – percebendo o que já nos alcança –  e também de lanternas pra ver mais longe, o que já existe, mas ainda não nos atinge diretamente. Já que não dá pra ignorar que essa é radicalmente uma questão globalizada, como faço pra me preocupar comigo mesmo e com os meus entes queridos, sem esquecer do cuidado com o restante do mundo?  Não estamos frente a um vírus numa lâmina, e muito menos, a um rato em uma caixa operante. Trata-se de um vírus real, no mundo real. É o novo mundo que se apresenta. São três níveis de seleção atuando, fora a transação inter-níveis trazida constantemente pelos fatores epigenéticos. Comportamento é um fenômeno complexo, já dizia Skinner. E o que o analista do comportamento tem a ver com isso? Tudo e mais um pouco. Porque já é tempo…

De vivermos os dias de hoje de verdade, não somente durante os treinos de mindfulness. De informarmos nossos clientes, familiares e alunos sobre as reais variáveis que estão influenciando nossa sociedade no momento atual. De sermos profissionais da saúde. De não cair em polaridades pouco efetivas. De sermos científicos em ações e, portanto, também em comportamentos verbais.

Qual é a variável independente? O vírus? A efetividade e quantidade dos leitos e de respiradores? A idade? As comorbidades já existentes? A classe social? A China? Nosso CEP? Viagem recente à Europa? Quarentena? Furar a quarentena? A resposta, já sabemos, é tudo isso junto e misturado, só que ainda com mais variáveis que não conseguimos ver pela simples falta de lanterna.

E a dependente? A vida. Ou a morte.

Se os políticos, cientistas e cidadãos não tomarem as decisões corretas, quem escolherá entre a vida e a morte será o tempo. Não o comandamos. Quem pode se comportar em direção a um controle mínimo das VIs em ação somos nós. Todos nós, habitantes desse planeta que estamos vivendo um momento sui generis – pandemia – também em um período único do desenvolvimento humano e tecnológico – século XXI. Temos meios de comunicação, temos acesso a dados, temos uma infinidade de entrevistas, textos, vídeos de Whatsapp pra decidir onde gastar nosso tempo. A comunidade analítico comportamental tem um grande número de profissionais liberais bem formados, alguns Mestres e Doutores em Ciências, Psicologia Experimental, Teoria e Pesquisa do Comportamento. Temos em nossas mãos ferramentas poderosas de tecnologia de ensino e, portanto, de mudança comportamental. Este manifesto é na verdade, um mando, um convite: Que tal nos atermos aos fatos e criar linhas de ação? Nos dedicarmos a prever e controlar nosso ambiente social?

Não adianta morrer (e nem matar) de medo. Não adianta negar que estamos em pandemia, também. Na verdade, ninguém sabe mesmo o que adianta em termos de “cura do COVID-19”. E de fato, virologia nem é nossa área de expertise. O convite é pra que façamos o que viemos ao mundo fazer: mudanças culturais, promovendo sensibilidade às contingências da pandemia.

Pandemia pode ser vista e vivida de diversas maneiras e perspectivas. Pragmaticamente, escolhemos adotar uma visão realista e otimista, ou em outras palavras, descritiva e efetiva, verdadeiramente promotora de melhorias sociais:

P– estabelecer e fortalecer Parcerias e colaboração

A- buscar novas Alternativas

N- atentar às Necessidades individuais e coletivas

D- atentar aos Desafios individuais e coletivos

E- alimentar a Esperança de que o futuro pode ser melhor

M- praticar a Moderação e a serenidade em nossas ações

I- aceitar a existência da Individualidade de cada um, não como verdade única, mas como ponto de vista modelado pela ontogenia e cultura.

A- Desenvolver respostas de Amor próprio, Amor aos entes queridos e à humanidade como um todo.

O acróstico pode gerar julgamentos à primeira vista, mas o entendemos como parte de uma possível (e aqui proposta) ferramenta na aplicação de nossas já conhecidas tecnologias comportamentais. A Pandemia é o momento oportuno para se fortalecer e suscitar Parceria, buscando Alternativas por vezes inovadoras para a resolução de novos problemas, e ficarmos atentos às novas Necessidades e Desafios pessoais e comunitários; nos permitir alimentar a Esperança de que passará e que, inclusive, sob alguns aspectos sairemos melhores do que entramos;  praticar a Moderação e a serenidade para entender que é necessário agirmos de maneira séria e responsável, como a gravidade da situação nos pede. Ou seja, evitando o extremismo como “Isso é um resfriado comum”, ou “O fim do mundo chegou!”, sem recair em polaridades desnecessárias. Até porque, devemos considerar as peculiaridades Individuais, respeitando-as nos âmbitos individuais e coletivos, culminando no cultivo do Amor próprio, do Amor aos entes queridos e à humanidade. Amar envolve o respeito, o cuidado e a consciência de que o nosso comportamento afeta a vida do outro, o que sem dúvida, nos soa como uma enorme responsabilidade. E é.

Por isso, era só um convite. A ferramenta está aí como uma possibilidade de enfrentarmos esse momento em que nossos valores urgem por serem ouvidos. E certamente só fará sentido se soubermos o que é essencial permanecer e ser nutrido em nossas práticas culturais. Quais repertórios precisamos modelar para, no futuro, nos depararmos com uma comunidade mais inclusiva, respeitosa, menos julgadora e mais produtora de reforçadores positivos intrínsecos?

Acreditam ser possível? Então nos unamos. Trabalhemos por isso. Todos. Voluntários ou cobrando. Individualmente ou em grupo. Ao vivo. Na quarentena. No “zap” ou no “zoom”. Não importa, desde que tenhamos um acordo tácito de seguir nossa filosofia pragmática (“Isso vai funcionar pra alcançar meus objetivos?”) e Monista (“como cuidar da saúde psicológica sem prejudicar a saúde física?”), mantendo o compromisso ético com a nossa comunidade. Sempre com a certeza de que “Gostemos ou não, sobrevivência é o valor pelo qual seremos julgados. A cultura que leva a sobrevivência em consideração tem mais chances de sobreviver” (Skinner, 1969, p.46).

Quais são as práticas cujas consequências manterão nossa cultura? Não temos certeza. Mas a OMS, o Ministério da Saúde, a Organização Panamericana de Saúde, a comunidade científica mundial, nos dão várias ideias, nos enchem de dados todo santo dia. É tempo de mudança. Não vamos esperar que passem, e depois contar a história. Façamos a história. Planejemos os novos hábitos. Promovamos mudanças culturais.

Nota 1: Para usar a ferramenta disponível para download (em formato de apresentação de power point), faz-se necessário o conhecimento de tecnologias comportamentais já existentes, descritas na literatura mais ampla de Terapia Analítico Comportamental, Terapias Contextuais, Terapias de Terceira Onda e Psicoterapia Baseada em Evidências.

Nota 2: A leitura das referências indicadas abaixo pode auxiliar o terapeuta no manejo adequado da ferramenta ao contexto em que este se propuser a aplicá-la.

Nota 3: A aplicação de técnicas sem o manejo adequado da conceituação do caso pode ser mais prejudicial ao seu público do que efetivo. Use as suas (inclusive essa) ferramentas de trabalho com sabedoria.

* Criação e divulgação da ferramenta: Kairós – Promovendo e Apoiando Mudanças Culturais

Referências

Baum, W. M. (1999). Compreender o Behaviorismo: ciência, comportamento e cultura. Porto Alegre: Artmed.

Dimidjian, S. & Linehan, M. M. (2009). Mindfulness practice. Em W. T. O´Donohue & J. E. Fisher (Orgs.), General principles and empirically supported techniques of cognitive behavior therapy (pp. 425-434). New Jersey: John Wiley & Sons

Hayes, S. C., Strosahl, K. D. & Wilson, K. G. (1999). Acceptance and Commitment Therapy: An experiential approach to behavior change. New York: Guilford Publications.

Hayes, S. C., Follette, V. M. & Linehan, M. M. (2004). Mindfulness and acceptance: expanding the cognitive-behavioral tradition. New York: The Guilford Press.

Kohlenberg, R. J. & Tsai, M. (1991). Functional analytic psychotherapy: Creating intense and curative therapeutic relationships. New York: Springer.

Linehan, M. M. (2015). DBT skills training manual. New York: The Guilford Press.

Linehan, M. M. (1993). Cognitive-Behavioral Treatment of Borderline Personality Disorder. New York, NY: The Guilford Press.

Martell, C. R., Dimidjian, S. & Herman-Dunn, R. (2010). Behavioral activation for Depression A Clinician’s Guide. New York, NY: The Guilford Press.

Skinner, B. F. (1969). Utopia as an experimental culture. Em: B. F. Skinner. Contingencies of reinforcement: a theoretical analysis (pp. 29 – 49). New York: Meredith Corporation.

Skinner, B. F. (1995). Sobre o Behaviorismo. São Paulo: Cultrix.

Skinner, B. F. (2000). Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes.

Skinner, B. F. (2002). Questões recentes na Análise Comportamental. Campinas: Papirus.

Tsai, M., Kohlenberg, R. J., Kanter, J. W., Kohlenberg, B., Follette, W. C. & Callaghan, G. M. (2009). A guide to functional analytic psychotherapy: Awareness, courage, love, and behaviorism. New York: Springer.

3 comentários sobre “Saúde mental e Responsabilidade Social – Um manifesto behaviorista.

  1. Antes era mais fácil julgar o outro sem se atentar ao seu sofrimento, sua dor, existem diferença entre o eu e o outro mais não percebemos essa diferença e ditamos regras e valores próprios o qual achamos que podem e devem ser usados por todos, temos que aprender mais sobre a dor e sofrimento dos outros sem julgamentos

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